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O Que Não Se Restitui

O Que Não Se Restitui

Cuidar dos pais idosos costuma ser dito como retribuição: eles cuidaram de você, devolve-se o cuidado. A premissa supõe simetria — mesma dívida, mesma moeda. Mas quem cuidou de você era outro corpo, outro limiar, outra disposição; e o pai idoso não é a criança que você foi. Não há equivalência a fechar. Há uma dobra nova, sem par anterior no rastro.

Quem cuida esperando quitar mede cada gesto pelo saldo. E o saldo nunca zera, porque o envelhecimento não é restituível. O cuidado então se corrói em contabilidade: já fiz o bastante, já é hora de outro assumir. A dívida imaginada transforma presença em cálculo.

O Ofício não opera por saldo. Opera por reconhecimento. Cuidar de quem envelheceu é sustentar o limite de uma vida que se reorganiza sem pedir licença — acompanhar a travessia enquanto dura, sem exigir que o outro volte a ser o que foi. É Axioma aplicado sob Imanências: cortar a expectativa de retorno, guardar o rastro do que ainda está aqui.

E ali, como diz o Prisma, “O contraste não cria valor: ele revela valor.” — não pede crença, pede atenção. Não há mérito a acumular nem conta a zerar. Há alguém atravessando uma dobra irreversível, e você podendo estar presente. Não porque deve. Porque é onde o vínculo se sustenta.

Não se retribui uma vida. Acompanha-se.

O contraste não cria valor: ele revela valor.

Este arquivo deriva de um trecho d'O Ofício da Dobra — a prática que ele descreve continua no livro, não termina aqui.

Isso ressoa com alguma coisa que você reconhece? Faça uma leitura de Prisma no Salão das Leituras →

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